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Nº 111
2002/11


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 REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE. AS ALTERAÇÕES TOPONÍMICAS E OS CARIMBOS DOS CORREIOS XXIII - METANGULA: UM TOPÓNIMO RICO DE TRADIÇÕES E DE HISTÓRIA OU COMO A HISTÓRIA POSTAL SE INTEGRA NA VERDADEIRA HISTÓRIA (2ª Parte)

Jorge Luís Fernandes

Na primeira parte deste trabalho analisámos interessantes factos histórico- geográficos e estudámos, também, com algum pormenor, a História Postal de Metangula e das regiões limítrofes do Lago Niassa.

Abrimos esta segunda parte com a reprodução de três gravuras, que têm muito a ver com o nosso trabalho e que ajudarão o leitor a situar-se no tempo e no espaço, complementando os mapas e esquemas antes divulgados.

Assim, na fig.8 podemos apreciar um selo da Niassalândia que nos mostra, com bastante pormenor, a posição deste país em relação a Moçambique (identificado como "Portuguese East Africa"), o Lago Niassa, algumas localidades mencionadas neste artigo e o caminho de ferro no seu percurso aproximado, do Chindio (em território moçambicano) à margem ocidental do Lago.

David Livingstone, missionário escocês e grande explorador africano, que pretensamente descobriu o Lago Niassa, é homenageado num selo do Malavei (fig.9), que tem a particularidade de ter sido carimbado em CHICHIRE-BLANTYRE, localidade várias vezes referida antes.

Finalmente, uma vista de Metangula é mostrada na fig.10.Trata-se de um inteiro postal da República de Moçambique; pela legenda, no verso, podemos constatar que no novo país continua a chamar-se "Niassa" ao grande Lago.

HISTÓRIA POSTAL: OS DIVERSOS CARIMBOS

Segundo já foi referido, Metangula teve correio pelo menos a partir de 1906, pois que há notícia oficial de que a primeira mala postal entre esta localidade e Fort Johnston aconteceu em 4/1/1906.

De início, os carimbos e etiquetas de registo tinham o nome do Concelho - LAGO -, o que não é caso único. Na carta que se mostrou nas fig. 5 e 5A, na primeira parte deste trabalho, datada de 1/5/1908, foi usado um carimbo circular da Companhia do Niassa, com este topónimo. Depois, ainda com o topónimo Lago, temos o carimbo hexagonal que se mostra na fig. 12, de um tipo que se generalizou em todo o território da Companhia. Ainda com este topónimo, e segundo informação de Altino da Silva Pinto, o carimbo administrativo da fig.11 conhece-se usado como obliterador.

Já que não é conhecida a existência de qualquer carimbo do correio, do tempo da Cª do Niassa, com o topónimo Metangula, supomos que a aparição deste nome, com expressão postal, se verificou logo após a passagem dos territórios desta Companhia privilegiada para administração o directa do Estado, o que se verificou a partir de 14/9/1929, como já foi dito. O interessante sobrescrito que pode apreciar-se na gravura 13, certamente terá relação com esse período de transição postal, pois que ostenta uma obliteração manuscrita com o topónimo Metangula, repetida cinco vezes, aparecendo ainda este nome, também manuscrito, na etiqueta de registo; a data é de 19/6/1930.

Assim, logo depois, o correio de Metangula passou a usar o carimbo hexagonal (fig.14) comum a todo o território sob administração do Estado Português, seguido, na devida altura, pelo tipo circular com ornamentos em forma de "S", genérico também, criado em 1948/49 (fig,15). Tudo normal, portanto, neste período.

Uma nova e importante modificação ocorreu em 1963: pela Portaria 17320/63, de 21 de Dezembro, Metangula passou a chamar-se Augusto Cardoso, homenageando Augusto de Melo Pinto Cardoso, notável oficial de marinha e cientista, muito ligado à região. Mas, não obstante esta realidade, o antropónimo não teve grande aceitação pelas populações, que continuaram a usar o antigo nome, facto que, aliás, pessoalmente constatámos noutros casos. Não terá sido certamente por esta razão, mas a verdade é que este topónimo tem pouquíssima representação na Marcofilia moçambicana: no período de 1963 a 1975 apenas foram utilizados, segundo cremos, carimbos provisórios de borracha, não sendo conhecido qualquer carimbo metálico, de longa duração. Facto deveras estranho, que nos custa a aceitar!... Estaremos enganados? Qualquer informação adicional será, obviamente, bem-vinda.

Ainda em relação aos carimbos provisórios, acrescentamos que se conhecem três tipos, com poucas diferenças entre si, batidos nas cores violeta, azul e preta (fig.16).

Após a independência de Moçambique, tendo sido eliminados praticamente todos os topónimos com conotações coloniais, Augusto Cardoso passou a chamar-se novamente Metangula. Com este nome, logo após a independência, foi posto em uso um carimbo circular com a legenda "C.T.T." (fig.17), seguido por um outro com os dizeres "Correios de Moçambique" e o logotipo "CM" (fig.18).

Tem interesse referir, à margem deste trabalho, que durante a 1ª Grande Guerra esteve estacionado em Metangula um contingente de tropas aliadas: os militares usaram nas suas correspondências selos da Cª do Niassa, inutilizados com um carimbo inglês de correio militar de campanha, com a designação "NYASALAND/FF2" (fig.19). Existem muitos selos carimbados de favor,sendo raras as cartas efectivamente circuladas, com esta marca a partir de Metangula.

Ainda em relação com as rotas postais de/para o Lago Niassa (ver a 1ª parte), julgamos que é importante referir que nas linhas ferroviárias da Niassalândia circularam ambulâncias postais. Pelo seu evidente interesse e por julgarmos que são praticamente desconhecidas no nosso país, reproduzimos os carimbos utilizados ao longo dos anos: atenção! pois há boas probabilidades de aparecerem (existirem ) correspondências de Moçambique com estes carimbos, já que as ambulâncias penetravam em território moçambicano, como se verifica facilmente analisando os elementos, desenhados ou escritos, que transmitimos na 1ª parte deste estudo.

Assim: o carimbo da fig.20A, com a legenda "SHR TPO" ("Shire Highlands Railways - Train Post Office"), foi utilizado no percurso BLANTYRE[10]/CHINDIO[13], entre 1923 e 1930; este carimbo foi substituído por aquele que se apresenta na fig. 20B em uso a partir de 1930 (?)até 1934; na fig.20C mostra-se um carimbo que esteve em serviço somente um ano (1935); nesta data foi inaugurada a "Northern Extension", de BLANTYRE[10] a SALIMA[4] passando a ser utilizados dois carimbos do tipo que se apresenta na fig.20D, em toda a extensão das linhas entre Sena e Salima: no percurso SENA[15]/BLANTYRE[10], com a legenda "T.P.O. SOUTH" e no percurso BLANTYRE[10]/SALIMA[4], legendado "T.P.O. NORTH".

Estas ambulâncias postais foram extintas em 1956.

AS ORIGENS DOS TOPÓNIMOS "METANGULA" E "AUGUSTO CARDOSO"

Muito pouco conhecemos sobre o topónimo Metangula. António Cabral, no seu utilíssimo "Dicionário de Nomes Geográficos de Moçambique - Sua Origem", a que tantas vezes recorremos, diz-nos apenas: "Segundo J.E.Mullan, os Senzi [um clã] vieram para sena de um lugar chamado Metangoni, que parece identificar-se com Metangula, na margem oriental do Lago Niassa".

O topónimo Augusto Cardoso homenageou Augusto de Melo Pinto Cardoso, oficial de Marinha, que prestou relevantes serviços em Moçambique. Augusto Cardoso nasceu em Lisboa a 19 de Agosto de 1859 e faleceu em Inhambane, em 1930.

Foi para Moçambique em 1881, com o posto de guarda-marinha. Fez extensas viagens de exploração, a partir da Costa até ao Lago Niassa, percorrendo 2500Km. Relacionados com as suas explorações elaborou valiosos estudos de carácter científico nas áreas da Matemática, Astronomia e Meteorologia; foi ainda jornalista, distinguindo-se também na administração pública, onde ocupou lugares de relevo: Governador do Distrito de Inhambane, capitão do porto de Lourenço Marques, entre outros.

À acção do Comandante Augusto de Cardoso e aos seus vastos conhecimentos da região do Lago Niassa, ficou a dever-se o relevante facto de não ter sido contestado o traçado das fronteiras naquela parte de Moçambique, fronteiras essas que foram reconhecidas pelo tratado Anglo-Luso de 1891, que se seguiu ao tristemente célebre ultimato inglês.

AS ALTERAÇÕES TOPONÍMICAS

Como já tem sido dito ao longo desta série de artigos, existem muitas versões diferentes de topónimos moçambicanos, variando conforme as épocas e as respectivas cartas geográficas ou outros documentos. Também se verificaram alterações de ordem política: mudanças efectuadas pelos portugueses (a que chamamos topónimos com conotações colonialistas) e posteriormente as alterações impostas após a independência de Moçambique (e no caso presente também da Niassalândia/Malávi). Duas advertências: 1) a lista que se segue, de topónimos relacionados com este artigo, não tem pretensões de se encontrar completa e absolutamente correcta; 2) não tivemos a preocupação de situar determinada versão dos topónimos na correspondente época em que estes vigoraram (tradicional ou oficialmente), ao longo das diversas fases deste artigo. Seria demasiado complexo; daí a razão de ser desta lista, que servirá também como exemplo das dificuldades a ter em conta pelos estudiosos da História Postal de Moçambique.

 

* NIASSA - NYASSA - NYASA (à maneira inglesa) - NHASSA - NHIASSA - NHIANZA - NIANZA - NYANZA - NHANJA MUENZO MARAVI (nome mais antigo - MARAVI terá dado MALÁVI (em português) e MALAWI (em inglês) - Nome actual: NIASSA (forma usada em Moçambique) e MALAWI OU MALAWI (este o nome oficial do lago e do país, que aparece nas cartas geográficas).

* M’TANGULA - M’TENGULA - M"TENGULI - METENGULA - METANGUIA - Chamou-se depois AUGUSTO CARDOSO: actualmente METANGULA

* ANKUABE - ANCUABE

* CUAMBA - Chamou-se depois NOVA FREIXO; actualmente CUAMBA

* FORT JHONSTON - Actualmente MANGOCHI

* MAHUA – MAÚA

* MESA - MEZA

* MONTEPUEZI - MONTEPUÉS - MONTEPUEZ

* M’SALUA - M’SALO - MUSSALO - MESSALUA

* M’TARICA – METARICA

* M’TÓNIA - METÓNIA

* MWALIA – MUÁLIA

* POMUNE - POMANE - PONEME (?) .

* PORTO AMÉLIA - Actualmente PEMBA

* PORT HERALD - Actualmente N’SANGE

* SHIRE (nome inglês) - CHIRE (nome português)

* VILA CABRAL, actualmente LICHINGA

 

NOTAS

1. Ver a primeira parte deste artigo.

2. Colecção do Dr. Luís Frazão. "Ostentação" é a palavra certa para esta carta, encaminhada através de Mandimba, pois é uma peça espectacular.

3. Facto também constatado pelo Dr. Altino Pinto, nas suas andanças por aquelas terras.

4. Chegou a aventar-se a hipótese de este carimbo funcionar como uma espécie de "sobrecarga", devido às autoridades portuguesas não aceitarem a utilização de selos da Niassalândia, no local; o que não nos parece muito provável.

5. Estes elementos foram extraídos da revista "The South African Philatelist"; embora no texto se refira que c carimbo da fig.20B foi posto em ser viço a partir de 1930, na gravura reproduz-se o desenho de um carimbo com a data de 6/1/1925.

6. Nas Notas antes publicadas sobre os Caminhos de Ferro da Niassalândia e Moçambique, não indicámos, por lapso, que a NYASALAND RAILWAYS–NORTH-ERN EXTENSION foi inaugurada em 1935, embora esta data pudesse deduzir-se do texto.

 

BIBLIOGRAFIA

(Além da mencionada no texto e notas, das duas partes deste artigo)

-RECORTES DIVERSOSO (Arquivo do autor)

- PORTU-INFO: Boletim da Internacional Society por Portuguese Philately (Vários números)

- NOVA ENCICLOPÉDIA "LAROUSSE"

- THE SOUTH AFRICAN PHILATELIST. Agosto/1959

- DIÁRIO DE MOÇAMBIQUE (Número especial comemorativo do Cinquentenário da Cidade da Beira, 20/08/1957)

- DICIONÁRIO DOS NOMES GEOGRÁFICOS DE MOÇAMBIQUE – SUA ORIGEM, por António Carlos Pereira Cabral

- DICIONÁRIO COROGRÁFICO DE MOÇAMBIQUE (1º Fascículo, Territórios de Cabo Delgado – Companhia do Niassa)

- PORTOS, CAMINHOS DE FERRO E TRANSPORTES DE MOÇAMBIQUE – Propaganda e Publicidade (Diversas publicações).


 

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