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Nº 104
2002/03


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República de Moçambique
As Alterações Toponímicas e os Carimbos dos Correios.
Salazar: um Topónimo que Durou Pouco

Jorge Luís P. Fernandes

Fig. 1. Instalação mecânica de Manuseamento de minérios Entreposto da Matola, Porto de Lourenço Marques/Maputo

UMA MUDANÇA QUE SE IMPUNHA

No preâmbulo do Decreto-Lei n.º 10/76, de 13 de Março, já antes muitas vezes referido nesta série de artigos ao analisarmos os topónimos com fortes conotações colonialistas, como são aqueles que homenageavam conhecidas personalidades portuguesas, diz-se: [...] “O sistema colonial ao impor essas designações, não só manifestou o maior desrespeito pela cultura e personalidades moçambicanas, como até procurou consagrar sinistras figuras do regime fascista português. Importa, por isso, eliminar imediatamente tais nomes que, por demais odiosos, representam um insulto à dignidade do nosso povo [...]”.

Nunca conseguimos entender a razão por que não figuram neste Decreto-Lei muitas localidades que bem poderiam enquadrar-se, segundo o ponto de vista das autoridades do novo pais, naqueles qualificativos. Efectivamente não foram considerados importantes centros populacionais como Vila Machado (Nhamatanda)1 , Vila Pery (Chimoio), Salazar (Matola), entre muitos outros. Por outro lado, foram incluídos topónimos de localidades pouco conhecidas, sem qualquer expressão, como: Olivença (Lipilichi), Valadim (Mavago) ou Miranda (Macaloge)2

Os critérios seguidos são para nós um mistério, que poderia levar-nos a especulações de ordem vária. A realidade é que, mesmo sem o suporte de qualquer documento legal, na prática os nomes foram praticamente todos mudados na altura, independentemente daquele Decreto-Lei, não sabemos sob a responsabilidade de quem.

Um caso muito flagrante é aquele de que vamos tratar hoje: SALAZAR (MATOLA), uma mudança que se impunha. Será difícil, neste caso, admitir um esquecimento do legislador, tanto mais que Salazar era quase um subúrbio de Lourenço Marques, a capital, que passou a designar-se Maputo, contemplada, neste caso sim, com direito a um Artigo exclusivo, o primeiro do referido Decreto-Lei.

Mas antes, supomos ser conveniente repetir brevemente algumas considerações já anteriormente expressas, considerando que esta série de artigos vem a ser publicada já há alguns anos, na Filatelia Portuguesa.

Convém, por isso, que os leitores tenham em mente que estas alterações toponímicas apressadamente implementadas logo após a independência de Moçambique, causaram sensíveis perturbações nos Correios e Telecomunicações, como não podia deixar de ser. No que às marcas do Correio respeita (e aqui não nos referimos às normais marcas-do-dia apenas), impunha-se, como é evidente, a sua rápida substituição; o que nem sempre aconteceu, dadas as conhecidas dificuldades, em diversos campos, que se verificaram.

Assim, na confusão que se seguiu, muitas coisas aconteceram: marcas-do-dia que foram “ressuscitadas”; carimbos provisórios adaptados de diversos modos, algumas vezes com as legendas toponímicas raspadas; franquias mecânicas com os nomes coloniais raspados também, usadas durante largos anos após a independência, assim como carimbos ainda com os nomes coloniais; etiquetas de registo aproveitadas, com as necessárias emendas algumas vezes, mas nem sempre; etiquetas de registo com os novos topónimos usadas em conjunto com as marcas-do-dia antigas ou vice-versa. E assim por diante... São interessantes e curiosas peças filatélicas, com algum valor para a História Postal!


Fig. 2. Porto de Lourenço Marques. Barras e Canais de Acesso. Boia Ø Farol *

ALGUMAS DATAS E UM POUCO DE HISTÓRIA POSTAL

Matola (Fig. 1) era a sede do concelho com o mesmo nome. A povoação foi criada pela Portaria n.º 928, de 12/10/1918, tornando-se com o passar dos anos um importante centro industrial e ferroviário. Situando-se a poucos quilómetros de Lourenço Marques (Maputo) e prolongamento natural do seu porto, foram ali construídas importantes e moderníssimas (na altura) instalações de manuseamento de minérios e outras (Fíg.2). Pela Portaria n.º 21181, de 20/4/1968, Matola, que era vila desde 1/2/1958 (Portaria n.º 12332), passou e denominar-se Vila Salazar, até que pela Portaria n.º 83, de 5/2/1972, foi elevada a cidade com o nome de Salazar. Depois da independência, como vimos, e sem que para isso fosse necessária qualquer disposição legal (tanto quanto sabemos), foi recuperado o antigo topónimo - MATOLA -, que aliás tem profundas raízes históricas, como veremos, e que verdadeiramente nunca deixou de ser usado por muita gente, brancos e negros.

Embora a povoação da Matola tenha sido criada em 1918, o seu assinalável desenvolvimento económico só se verificou bastante mais tarde. Assim não sabemos da existência de carimbos nos seus primeiros anos de existência e não temos referências quanto à data da abertura do seu primeiro Correio.


Fig. 3

Fig. 4

Fig. 5

Mesmo assim podemos ilustrar, em termos de História Postal, as várias fases da sua evolução toponomástica:

1) Nas fig. 3 e 5, podemos ver, com o topónimo Matola, mas agora “ressuscitado”, o carimbo usado no tempo colonial, circular com rectângulo para a data e ornamentos em forma de “S” (criado em 1949) e na fig. 4 um outro carimbo, de tipo que se vulgarizou posteriormente, caracterizando-se pela legenda Moçambique e pelo espaço para a data delimitado por dois traços horizontais tocando a circunferência.


Fig. 6

Fig. 7

Fig. 8

2) A legenda Vila Salazar aparece-nos no carimbo provisório de borracha (Fig.6), usado cinco meses depois da mudança de nome, enquanto que na fig.7 pode ver-se um carimbo metálico com o diâmetro de 34 mm, portanto de tamanho maior do que o usual. Conhecemos também um carimbo provisório de borracha com as legendas: Estação Telégrafo Postal/do/Bairro do Fomento Vila Salazar (Fig.8).


Fig. 9

3) O carimbo da fig.9, provisório, datado de 21/12/1972, documenta, com a sua legenda Matola-Gare, que a estação de caminho de ferro não mudou de nome; o que aliás se comprova pela lista das estações de Correios e Telecomunicações, oficial, editada em 1974, onde figura como E.Postal de 3ª classe.


Fig. 10

4) Depois da elevação a cidade o topónimo passou a ser simplesmente Salazar, como pode ver-se pelo carimbo da fig.10.

5) Finalmente, após a independência de Moçambique, o nome, como já vimos, reverteu para o antigo Matola.

Reproduzimos nas fig. 3 e 5 o “velho” carimbo circular (tipo de 1949), apressadamente recuperado, quando tinha já terminado os seus anos de vida. Nota-se nitidamente que os dígitos necessários para compor o ano de 1975 já não existiam, aparecendo no seu lugar duas impressões rectangulares, sem qualquer gravação. O carimbo que se mostra tem a data de 25/8/1975, exactamente apenas dois meses depois da declaração da independência, que como é sabido ocorreu a 25/6/1975. Como exemplo de carimbo genuinamente da República (Popular) de Moçambique, pode ver-se na fig. 11 um sobrescrito oficial dos C.T.T. do novo pais, que nos oferece, acessoriamente alguns “saborosos condimentos”: para além do carimbo metálico de novo tipo, podemos ver o escudo da R.P. de Moçambique encimando as iniciais CTM (Correios e Telecomunicações de Moçambique) e também um carimbo administrativo, ostentando, curiosamente, duas legendas, uma delas perfeitamente escusada e até errada: ESTAÇÃO POSTAL DE MATOLA e C.T.T. – MATOLA. Saliente-se a discrepância entre as iniciais C.T.T deste carimbo administrativo e CTM do sobrescrito.

6) Por último, analisemos com mais cuidado os documentos das fig. 4 e 5, já antes referidos que ilustram com toda a propriedade as duas mudanças toponímicas, e que consideramos duas interessantes peças de História Postal!


Fig. 11

Assim, na fig.4 temos um sobrescrito oficial dos Correios, datado de 14/6/1968, apenas dois meses após a mudança de Matola para Vila Salazar; o carimbo metálico e a etiqueta de registo continuam a ter a legenda toponímica Matola; no carimbo provisório de borracha, infelizmente muito mal batido e por isso pouco perceptível, lê-se já Vila Salazar. No verso, carimbos de trânsito de Lourenço Marques (15/6/1968) e de chegada, Inhaminga (26/6/1968).

Documenta-se, assim, a primeira mudança!

Depois da independência, como já vimos, a cidade de Salazar reverteu ao seu antigo nome. Na fig.5 reproduz-se um outro sobrescrito dos C.T.T. corroborando esta nova mudança; do mesmo modo, mas agora inversamente, na etiqueta de registo 1ê-se o nome de Salazar; o carimbo metálico “ressuscitado”, como acima o apelidamos pelas razões apontadas, de 25/8/1975, (muito perto da data da independência, portanto), tem a legenda Matola. No verso, carimbo de chegada da Beira - 27/8/1975.


A ORIGEM DOS DOIS TOPÓNIMOS

A origem do topónimo Salazar não oferece quaisquer dúvidas, razão por que não vamos alongar-nos sobre o assunto. Registe-se apenas que ao dar-se a Matola o nome de Salazar, pretendia-se homenagear o Dr. António de Oliveira Salazar, professor universitário e estadista, que foi ministro desde 1928 e primeiro-ministro de Portugal, de 1932 a 1968. Salazar nasceu no Vimieiro (Santa-Comba-Dão), em 28/4/1889; morreu em Lisboa, em 27/7/1970.

Por outro lado, Matola, topónimo de que aliás não conhecemos a etimologia, já apresenta algumas dificuldades de investigação, pelo que vamos debruçar-nos sobre este nome com mais vagar.

“Às seis horas da manhã chegámos à primeira povoação da Matola, onde os pretos entraram cantando. No dia seguinte partimos às seis e meia da manhã e chegámos à povoação da rainha regente3 às cinco e meia da tarde. Dali via-se o rio de Lourenço Marques e o sítio da povoação. Encontrámos a rainha com uma formidável bebedeira de aguardente. [...] Tanto caçadores como carregadores passaram toda a noite a cantar e dançar, sendo acompanhados neste divertimento pelos rapazes e raparigas da povoação. Partimos no dia seguinte às sete horas e chegámos finalmente a Lourenço Marques às nove e meia da manhã no dia 9 de Julho de 1891". [...]

Assim se expressava Diocleciano Fernandes das Neves no seu livro de memórias Itinerário de uma Viagem à Caça de Elefantes,4 ao regressar a Lourenço Marques, depois de uma longa, aventurosa e perigosa viagem, de caça e negócios, numa época em que quase toda a região sul de Moçambique se encontrava a ferro e fogo, devido à cruenta guerra civil pela disputa do trono do Império de Gaza; guerra que envolvia também as autoridades portuguesas de Lourenço Marques,5 então uma simples vila, completamente dependente da capital - a Cidade de Moçambique.

O régulo Matola estava, necessariamente empenhado nestas lutas. O povo de Matola pertence ao clã Ronga, da etnia Tonga, que se fixou na região em época recuada.

Vejamos, cronologicamente e de forma breve, alguns acontecimentos em que participaram o régulo Matola e as suas gentes, constatação da importância deste potentado negro, na altura considerado rei.

Alexandre Lobato, no seu livro LOURENÇO MARQUES, XILUNGUINE diz-nos. “Joaquim de Araújo, o Fundador, que no dia de S. José de 1782 inaugurou o Presídio [Lourenço Marques], arvorou a bandeira das armas reais num reduto cercado de estacas e caniço, dentro do qual estavam as palhotas e barracas de capim do destacamento. A verdade é que o Matola, que detinha o senhorio maior da terra, por ser o Mafumo seu vassalo, recebera a expedição tão bem que “não podia dar maior demonstração de afabilidade, e cordeal afecto pelos Portugueses”. Joaquim de Araújo “ foi bem recebido pelo dito Rey e seus apaniguados”.

Depois há noticia de que Manicusse(5), o criador do grande Império de Gaza, teria passado por terras de Tembe e Matola, onde esteve de 1820 a 1822.

Mas em 26 de Junho de 1833 a vida no Presídio complicou-se: segundo um documento atribuído a António José Nobre,6 iniciou-se nesse dia um feroz ataque a Lourenço Marques, que se prolongou por algum tempo, de que resultou a morte do próprio governador Dioniso António Ribeiro e de quase todos os moradores, brancos e negros. Esta guerra foi levada a cabo pelos “reis vátuas do Cabo Natal, Machacana da Matola, Massacana do Maputo e mais reis vizinhos do presidio da Baia de Lourenço Marques”.

Contudo, em 1855 a situação era diferente, já que, por essa altura, o régulo Matola está amigo dos portugueses, que apoiava. Nesse ano o regulo de Moamba atacou Matola, tendo a sua população procurado refúgio no Presídio; o mesmo aconteceu em 1858, quando as povoações da Matola foram destruídas e saqueadas. Entretanto, a Coroa Portuguesa tinha no distrito de Lourenço Marques oito régulos vassalos, que protegia, portanto, e que ajudavam os portugueses nas lutas contra os Vátuas. O régulo Matola encontrava-se entre os vassalos de Portugal.

Esta situação mantinha-se ainda aquando da morte de Manicusse e durante a terrível e destruidora guerra civil (1858 a 1864), que já referimos. O régulo Matola e as suas gentes tiveram papel preponderante nesta época difícil para os portugueses, na ajuda que lhes prestou com os seus guerreiros.

Foi este topónimo - Matola - que em 1968 foi substituído por Salazar; é claro que não vamos aqui estabelecer comparações, que aliás não teriam cabimento, nem vamos discutir a razão de ser da homenagem ao ditador português e da sua oportunidade. Mas, convenhamos, a substituição daquele topónimos tão conhecido e antigos com profundas raízes moçambicanas, constituiu (constituiria sempre, qualquer que fosse o novo nome escolhido...), sem dúvida, um desrespeito pela cultura e tradições do pais!...


BIBLIOGRAFIA
- LOURENÇO MARQUES, XILUNGUÍNE (Biografia da Cidade, Tomo I - A Parte Antiga), por Alexandre Lobato; Agência Geral do Ultramar - Lisboa, 1970.
- DAS TERRAS DO IMPÉRIO VÁTUA ÀS PRAÇAS DA REPÚBLICA BUER, por Diocleciano Fernandes das Neves e Ilídio Rocha; Publicações D. Quixote - Lisboa, 1987.
- USOS E COSTUMES DOS BANTOS (Tomo I), por Henrique Junod; 2ª Edição, Imprensa Nacional de Moçambique - Lourenço Marques, 1974.
- Publicações diversas dos Serviços dos Portos, Caminhos de Ferro e Transportes de Moçambique - Secção de Propaganda e Publicidade.

NOTAS
1 Entre parênteses indica-se sempre o nome moçambicano, que substituiu o topónimo colonial.
2 Em futuros trabalhos debruçar-nos-emos ainda sobre algumas destas mudanças toponímicas.
3 Era, muito provavelmente, o local da Matola actual, segundo nota de Ilídio Rocha, à margem do livro que adiante referiremos.
4 Diocleciano Fernandes das Neves, nome actualmente praticamente desconhecido, mas cuja biografia vale a pena ler, comerciante e caçador, profundo conhecedor da terra e das gentes, de uma honestidade a toda a prova, patriota e grande amigo dos moçambicanos (que lhe retribuíam a amizade com profunda dedicação e respeito) publicou este livro em 1878; foi reeditado em 1987 sob o titulo Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer, integrando a versão original e correcções, notas e um posfácio (biografias de Diocleciano Fernandes das Neves e de João Albasini), da autoria de Ilídio Rocha.
5 Manicusse foi o notável fundador do Império de Gaza; quando morreu (1858), o seu filho Maueva, considerando-se com direito ao trono, matou vários de seus irmãos e, à força, tomou conta do poder; seguiu-se uma guerra civil entre Maueva e outro seu irmão, o Muzila, que segundo o direito consuetodinário também tinha direitos de sucessão. Muzila, com a ajuda dos portugueses e devido também à acção preponderante de Diocleciano Fernandes das Neves, acabou por derrotar Maueva, por todos considerado déspota e cruel. Gungunhana era filho de Muzila. O autor conta, no livro citado, que o Maueva, durante a viagem, lhe moveu diversas “guerras” e emboscadas, que só ultrapassou devido à sua valentia e profundo conhecimento daqueles sertões e das gentes.
6 Citado por Ilídio Rocha; ver nota (4).


 

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